Eu escolho os pensamentos cautelosamente enquanto as gotas caem na minha cabeça e eu imagino que estou a mergulhar no mar. A trégua que a minha mente me dá, o único momento em que eu não preciso contar por quantos segundos a água está caindo e não enlouqueço por não poder saber quantas gotas tocam em mim. Mas hoje eu esqueci de fazer uma ligação importante porque eu não conseguia sair dos meus próprios pensamentos e estava muito cansada para tentar. E eu sei que amanhã é outro dia e eu posso tentar de novo. Posso ser a pessoa que se preocupa, liga e se mantém presente. Então eu penso e penso de novo se é significante a minha presença, se eu vou ter tempo de contar meus passos e meus movimentos. Nada disso importa e ninguém precisa me dizer: esses são pensamentos inúteis. Porque eu só preciso achar uma resposta, uma explicação. No entanto, todas as pistas me levam à outras perguntas sem respostas. E eu sorrio, por apelo à tudo que eu gosto em mim.
“O destino, isso a que damos o nome de destino, como todas as coisas deste mundo, não conhece a linha reta. O nosso grande engano, devido ao costume que temos de tudo explicar retrospectivamente em função de um resultado final, portanto conhecido, é imaginar o destino como uma flecha apontada diretamente a um alvo que, por assim dizer, a estivesse esperando desde o princípio, sem se mover. Ora, pelo contrário, o destino hesita muitíssimo, tem dúvidas, leva tempo a decidir-se. Tanto assim que antes de converter Rimbaud em traficante de armas e marfim em Africa, o obrigou a ser poeta em Paris.”
— José Saramago, in ‘Cadernos de Lanzarote (1994)’ (via meditatio)
A criança olha
para o céu azul.
Levanta a mãozinha.
Quer tocar o céu.
Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que não o alcança,
Quando o tem na mão
Manuel Bandeira
Ludwig Dettmann
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